O calor começava a crescer. A luz do sol já queimava a pele e tornava o ar ondulante, como se tudo estivesse derretendo em silêncio. Jesus caminhava lentamente, sem rumo definido, apenas obedecendo ao impulso do Espírito que o havia conduzido ali. Seus pés afundavam na areia quente, e o peso da solidão começava a se fazer mais real.
Não havia vozes humanas, nem pássaros, nem sombra. Apenas o som do próprio coração e o farfalhar do vento seco.
Ele parou e se assentou à sombra de uma pequena elevação rochosa. O silêncio parecia mais denso naquele dia, como se o próprio deserto o estivesse observando. Foi então que a Voz voltou, doce e firme como na véspera:
– Filho, você sente o peso da solidão?
Jesus respondeu após um tempo, com um leve suspiro:
– Sim, Pai. É como se tudo dentro de mim estivesse se calando. Não há distração aqui, não há rostos familiares. Só Eu… e o que sou por dentro.
– E isso é o que desejo que veja. A solidão não é castigo, é espelho. É nela que se revelam as verdades que o barulho encobre. Aqui, você verá a si mesmo – e também verá os homens que veio salvar.
Jesus baixou os olhos, contemplando o chão rachado à sua frente. Sua voz saiu mais baixa:
– Eles estarão sozinhos também?
– Muitos, sim. Mesmo em meio às multidões. Carregarão vazios que ninguém mais pode ver. Sentirão dores que não sabem nomear. Faltarão braços, abraços, palavras… e quando olharem ao redor e não encontrarem ninguém, lembrarão que Eu estou.
Jesus ergueu os olhos, tocado.
– Então é por isso que estou aqui. Para saber o que é essa dor. Para que, quando eles clamarem em silêncio, eu possa ouvir… porque já conheci esse silêncio.
– Exatamente, meu Filho. A solidão os fará clamar por Mim. E você será o sinal de que Eu escuto. De que Eu venho. De que Eu estou perto.
Jesus respirou fundo. O vazio, agora, parecia carregado de sentido. A ausência de tudo tornava mais presente Aquele que é tudo.
– Pai, eu pensei que estava só… mas o silêncio é cheio da Tua voz.
– E é nesse silêncio, Filho, que você será moldado. Porque, antes de carregar a cruz, você precisa carregar o mundo no coração.
O dia seguiu em sua lentidão impiedosa. Mas algo dentro de Jesus havia mudado. A solidão já não era inimiga – era professora.
Ali, no deserto, Ele aprendeu que a presença de Deus se revela com mais força quando tudo o mais nos falta.
E assim terminou o segundo dia. Um pouco mais vazio de si, e mais cheio do propósito do Pai.




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