O céu naquele dia estava especialmente claro. Nenhuma nuvem. Nenhuma sombra. Apenas um azul profundo que parecia infinito. Jesus contemplava aquele vasto espaço com olhos silenciosos. O calor da areia queimava, mas seu coração ardia por algo ainda mais intenso: o peso crescente da missão.
Ele já sabia quem era. Sabia por que viera. Mas agora, com o corpo mais fraco e o coração mais exposto, sentia também o que isso custaria.
– Pai… – sua voz saiu como um lamento contido – …por que o caminho tem que doer tanto?
A resposta demorou um instante, como se o céu também estivesse refletindo.
– Porque amar, Filho, sempre custa. E o amor verdadeiro nunca se oferece sem feridas.
Jesus abaixou a cabeça, os pensamentos se misturando com lembranças e presságios.
– Eu verei a rejeição nos olhos de quem Eu curar…
– Verei o medo nos amigos mais próximos…
– Sentirei a traição de quem andar ao meu lado…
– E… e quando Eu estiver na cruz, sentirei até a Tua ausência.
Um silêncio profundo seguiu suas palavras. E então, o Pai falou, com uma ternura que parecia conter lágrimas invisíveis:
– Sim, Filho. Tudo isso é verdade. Mas você precisa saber: nenhum momento de dor será em vão. Cada lágrima derramada será regada com esperança. Cada injustiça sofrida, convertida em redenção.
Jesus assentiu lentamente.
– Então… é assim que o Reino será construído? Não com espada, mas com entrega. Não com força, mas com compaixão?
– Exatamente. Você será Rei, mas usará coroa de espinhos. Você vencerá, mas não pela força, e sim pelo sacrifício. Você libertará muitos… ao ser preso.
Jesus ficou em silêncio. O céu continuava vasto. E Ele se sentia pequeno diante do que teria de suportar.
– Pai… eu não tenho medo da dor. Mas confesso… há um aperto ao saber que muitos ainda assim te rejeitarão. Que mesmo vendo a cruz, continuarão andando longe de Ti.
– Eu sei, Filho. Eu também sinto. Mas o amor não exige retribuição. Ele apenas se doa. E a salvação… estará ali, aberta. Para quem quiser vir.
Jesus fechou os olhos, e uma lágrima escorreu.
– Que eu nunca me esqueça disso… quando os gritos de “crucifica-o” soarem mais alto do que os “hosanas”.
– Eu estarei com você. Mesmo quando parecer que não estou. A ausência será apenas aparente. Porque o maior silêncio do céu será o grito mais alto do amor.
O coração de Jesus apertou, mas também se firmou. O deserto não era apenas um lugar de provas, mas de preparo. Ali, Ele estava se revestindo de algo que nenhum poder terreno poderia oferecer: a firmeza para suportar tudo… por amor.
E assim terminou o quinto dia. O dia em que Ele sentiu o peso da missão — e decidiu carregá-la mesmo assim.




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