O décimo dia amanheceu com um gosto amargo no coração de Jesus.
Não era apenas a fome, a sede, ou o cansaço que o afligia — era a consciência de tudo o que estava por vir. O que Ele carregava dentro de si não era leve: era o peso de saber. Saber do abandono. Saber da cruz. Saber da rejeição daqueles a quem amaria mais profundamente.
Enquanto caminhava, as perguntas se tornavam mais intensas.
– Pai… por que me mostras tudo isso? Por que me fazes sentir antecipadamente o que ainda nem aconteceu?
A Voz do Pai veio calma, mas firme:
– Porque a missão exige entrega antes mesmo que ela comece. E o amor verdadeiro prevê a dor… mas ainda assim, decide continuar.
Jesus assentou-se num canto de sombra. Seu olhar se perdia na paisagem, mas sua mente estava cheia de rostos que ainda não conhecia, mas que já amava.
– Eu os verei se afastarem, mesmo depois de serem curados. Eu ouvirei gritos pedindo minha morte, mesmo depois de alimentar suas famílias. Eu sentirei o peso de ser rejeitado… por aqueles por quem entregarei minha vida.
– Sim, Filho. E mesmo assim… você os amará.
– Isso me corrói por dentro, Pai. Saber que muitos me esquecerão. Que me usarão. Que distorcerão cada palavra.
– E isso te ensinará o que é graça: amar não porque merecem, mas porque você decidiu amar.
Jesus fechou os olhos, lágrimas discretas escorreram por seu rosto marcado pela poeira.
– Eu não terei expectativas, então?
– Você terá. E elas serão frustradas muitas vezes. Mas cada frustração será uma oportunidade de amar com mais pureza.
Jesus abaixou a cabeça.
– Como não endurecer, Pai? Como não me tornar frio diante da ingratidão?
– Lembrando que Eu também amo um mundo que me ignora todos os dias. E ainda assim, continuo sustentando cada respiração.
Silêncio. Profundo. Santo.
Jesus entendeu: expectativa é o preço de quem ama com profundidade. Quem ama, espera. E quem espera, às vezes se frustra. Mas quem continua amando… se torna espelho do Pai.
– Eu não fugirei disso, Pai. Nem esconderei meu coração. Eu amarei… mesmo quando doer.
– E é por isso que você é meu Filho. Em você, meu amor será visto. Mesmo pelos que o rejeitarem.
O vento soprou mais suave. Como se acariciasse o rosto de quem tinha acabado de decidir não fechar o coração para o mundo.
E assim terminou o décimo dia — o dia em que Jesus aprendeu que amar com expectativa é se preparar para a dor, mas também para a glória de amar como Deus ama: sem reservas, sem garantias, mas com toda a entrega.




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