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A prisão dourada – Parte I

svg6 de junho de 2025Séries

Ninguém sabia ao certo quando ela começou a construir os muros. Talvez tenha sido no dia do adeus, ou talvez muito antes, quando ainda sorria com a ilusão de que certas histórias são eternas.

O nome dela era Clara, e ironicamente, a vida que levava era tudo, menos clara. Aos vinte e poucos anos, com a juventude brilhando nos olhos e um futuro inteiro nas mãos, decidiu fechar as portas do coração. Não por raiva, nem por orgulho — mas por amor. Um amor que a morte levou cedo demais, deixando um espaço tão vasto dentro dela que parecia ecoar com o vento.

Mas Clara não se entregou ao luto comum. Ela fez algo mais raro — e perigoso. Ela escolheu esperar. Não por semanas, nem meses. Esperar uma eternidade. Esperar por ele em outro mundo, onde acreditava que se reencontrariam, puros, inteiros, como tinham sido antes da tragédia.

Com o tempo, as pessoas começaram a notar. As amigas casavam, os amigos mudavam de cidade, os filhos vinham, os anos passavam. Clara permanecia. Bela, serena, distante. Não que recusasse a vida — mas a vivia à margem, como quem aceita o prato, mas não come.

“Ela tem uma alma antiga”, diziam alguns. “É uma romântica incurável”, diziam outros. Mas ninguém via os muros.

Muros dourados.

Sim, porque a prisão onde Clara se isolou não era escura, nem triste à primeira vista. Era feita de lembranças doces, de promessas eternas, de cartas guardadas, de músicas que ela ouvia em silêncio. Era bela — como certas gaiolas que se confundem com joias.

Só que lá dentro, não havia ar fresco. Havia a ausência. O corpo precisava de toque, a alma de troca, o tempo de novidade. Mas Clara alimentava-se apenas da memória — como quem tenta sobreviver com o perfume de um pão, sem nunca mordê-lo.

Às vezes, à noite, ela se perguntava: “E se eu estiver errada? E se ele me vê daqui, e sofre por me ver assim?” Mas essas dúvidas vinham baixas, como vento fraco, e logo eram abafadas pelo som dos passos que ecoavam nos corredores dourados da sua prisão.

Ela sorriu muito pouco, mas amou muito. E por isso, poucos ousaram julgá-la.

Um dia, alguém novo bateu à sua porta. Não com promessas, nem com pressa. Apenas com presença. Ele não tentou derrubar os muros. Apenas se sentou do lado de fora, e esperou.

Clara, pela primeira vez, olhou não para dentro, mas para fora da cela. E ali, entre os reflexos dourados das grades, viu o mundo continuar. Com perdas, sim, mas também com possibilidades.

O conto não termina aqui. Porque Clara ainda não saiu da prisão. Mas ela viu a tranca. E isso já é mais do que muitos conseguem em uma vida inteira.

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