Ele vinha todos os domingos. Nunca antes, nunca depois. Trazia consigo um livro amassado, às vezes flores sem nome, às vezes só o silêncio. Sentava-se diante da casa de Clara como quem aguarda um pôr do sol — sem cobrança, sem urgência. Apenas esperando que o tempo fizesse o que o tempo faz: mudar tudo, devagar.
Ela observava da janela. Às vezes nem disfarçava. Sabia quem era ele — o nome pouco importava. Era alguém que não a queria tirar dali, mas queria estar ali caso ela decidisse sair.
No começo, achou aquilo tolo. Depois, gentil. Por fim, estranho… porque aquilo começou a mexer nas estruturas. Não com violência — com ternura. Uma rachadura leve no ouro das paredes, como se o sol batesse num ponto esquecido e revelasse que, talvez, ali pudesse haver uma porta.
Em uma dessas tardes de domingo, Clara saiu.
Não foi longe — apenas até a varanda. Ele não disse nada. Apenas sorriu como quem vê uma flor nascer no cimento.
Ela se sentou ao lado, sem encostar, e perguntou:
— Por que você vem?
Ele olhou o céu como quem traduz silêncio, e respondeu:
— Porque acredito que ninguém foi feito para viver sozinho em uma lembrança. E porque, se o amor que você teve foi tão grande assim, ele não te prendeu. Ele te ensinou a amar. Só falta você descobrir que ainda pode.
Essas palavras bateram fundo. Clara não respondeu. Mas naquele dia, ao voltar para dentro, deixou a porta entreaberta. Não por ele, mas por si mesma.
Nas semanas seguintes, ela passou a cuidar do jardim. Plantou alecrim, lavanda e algumas sementes que nem sabia o nome. Aos poucos, o dourado das grades começou a perder o brilho. Ainda estavam lá, mas já não pareciam muros — pareciam molduras de uma janela.
Ela ainda sonhava com o amor que perdeu. Ainda acreditava que um dia se reencontrariam, de algum modo. Mas agora havia espaço para outra verdade: não é preciso morrer para manter um amor eterno. Também é possível viver.
No último domingo da primavera, ela caminhou até o portão. Ele estava lá, como sempre, esperando sem pressa.
Clara abriu. Olhou para ele. E com a voz firme, mas baixa, disse:
— Eu não prometo nada. Ainda dói. Ainda espero. Mas… talvez eu possa te contar minha história. E talvez… você possa me mostrar a sua.
Ele não sorriu grande. Apenas assentiu, com os olhos de quem compreendia cada camada daquele gesto. E então, os dois caminharam. Não para longe — apenas um pouco além da prisão dourada.
Porque o primeiro passo não precisa ser largo. Só precisa ser livre.




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