No oitavo dia, o deserto parecia mais vasto do que nunca. Nenhum som. Nenhuma voz. Apenas o ruído de seus próprios passos sobre a areia seca, e o som do próprio coração.
Jesus caminhava devagar, o corpo exausto, os lábios ressecados. Cada dia parecia deixá-lo mais fundo em um lugar que não se media com os olhos, mas com a alma. Um lugar onde tudo era despojado… inclusive a presença visível do Pai.
Por um longo tempo, não houve palavra alguma. Nem dEle, nem do Pai. Apenas o silêncio. E então, o medo sutil da solidão começou a tocar seu coração.
– Pai… estás aí? – perguntou, com a voz rouca.
Nenhuma resposta.
– Pai… será que me deixaste… por um tempo?
O céu manteve-se em silêncio. E naquele momento, algo dentro de Jesus tremeu. Não era dúvida sobre quem Ele era. Era a experiência crua da ausência. Ou, ao menos, da sensação dela.
– Eu estou só, não estou?
A resposta veio, finalmente. Mas não como antes. Não com força. Foi como uma brisa que quase se perde no vento.
– Você sente solidão… porque está amando com profundidade.
Jesus franziu o cenho, tentando entender.
– Amar… leva à solidão?
– Quando se ama verdadeiramente, você carrega dores que ninguém entende. Caminha passos que ninguém vê. E se entrega mesmo quando ninguém retribui. Essa é a essência do meu amor. E é isso que você está aprendendo aqui.
– Mas, Pai… por que não falas comigo o tempo todo? Por que deixas o silêncio me envolver?
– Porque o silêncio ensina onde as palavras não alcançam. Aqui, no silêncio, você não escuta apenas a Mim… mas a si mesmo. E enfrenta a verdade sem distrações.
Jesus se assentou numa sombra fina de uma pedra. Olhou para as marcas no chão, deixadas pelos seus próprios pés.
– Então a solidão… é parte do preparo?
– Sim. Ela cava espaço dentro de você para acolher os solitários do mundo. Como você os consolará, se não souber o que sentem?
Jesus respirou fundo. Agora entendia.
– Quando eu ver os abandonados, os rejeitados, os esquecidos… saberei o que eles sentem. Porque aqui… estou sentindo também.
– E quando você os abraçar, será como se Eu mesmo os estivesse abraçando através de você.
Jesus sorriu com os olhos marejados.
– Pai, mesmo quando o silêncio grita… o Teu amor ainda sussurra. E isso me basta.
– Nunca estás só, Filho. Mesmo no silêncio… Eu estou contigo.
E naquele instante, a solidão não desapareceu por completo, mas perdeu o poder de esmagar. Agora era companheira, não inimiga. Um lembrete de que, mesmo sem ouvir, Ele ainda estava sendo moldado.
E assim terminou o oitavo dia — o dia em que Jesus aprendeu que a solidão é parte do amor mais profundo, e que mesmo quando Deus parece calado… Ele nunca está ausente.




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